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Artigos › 22/06/2018

A massificação da comunidade

Caros amigos, a dimensão social inerente à natureza humana (cf. Gaudium et spes, 12) influi diretamente na realização de um mundo mais humano e fraterno. O homem realiza mais plenamente sua vocação e missão unido aos demais, e, por ser dotado de sociabilidade, suas ações individuais têm reflexo na vida da comunidade.

Em nossa última reflexão, comentamos sobre a responsabilidade que cada um de nós tem no uso das redes sociais no sentido de evitar a divulgação indiscriminada de meias verdades. É preciso esclarecer, que por de trás da confecção de boa parte das falsas notícias existe uma estratégia de manipulação das massas.

Nas últimas semanas, vimos se multiplicarem nas redes sociais inúmeras notícias desprovidas de veracidade, veiculadas com a intenção de gerar apreensão, tumulto e revolta em grande parte da população.

Para compreendermos melhor o processo de influência que estas falsas notícias exercem sobre a comunidade, é preciso entender como o homem se relaciona com o mundo.

Criada por Deus como unidade de alma e corpo, a pessoa é ao mesmo tempo um ser espiritual e material. Em seu espírito está aberta à transcendência e à descoberta de uma verdade mais profunda. Mas, em sua materialidade está ligada ao mundo assim como as demais criaturas. Após a ferida do pecado original, o corpo faz com que o homem experimente as rebeliões da carne e as perversas inclinações do coração, deixando-o vulnerável à escravidão e à manipulação. (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 127-129).

Comumente, tais inverdades apelam para o sensacionalismo, excitando nos indivíduos os mais primitivos sentimentos de medo, revolta e angústia, com a intenção de despertar o lado animal, irracional, instintivo da psique humana, que por sua vez é condicionável.

Ciente da influência que a dimensão corporal tem sobre o comportamento humano, elites intelectuais e econômicas passaram a utilizar os meios de comunicação para divulgação de notícias mentirosas manipulando as opiniões, os gostos e tendências do “mercado” com a intenção de lucro, e para manter essa massa populacional sob controle.

É importante destacar que a instrumentalização do povo se dá pela transmutação da comunidade em massa. Perdendo a capacidade de discernir; gritam sem nem mesmo saber o que estão dizendo, seguem cegamente uma cartilha ditada por pessoas que se autopromovem como lideranças populares para manipulação da informação.

Algo semelhante aconteceu no tempo de Jesus, adverte o Papa Francisco; a comunidade que na entrada de Jesus em Jerusalém aclamava “hosana ao Filho de Davi” (cf. Mt 21,9; Mc 11,10; Lc 19,38; Jo 12,13), pela força política e ideológica dos mestres da lei, converte-se em massa, que no julgamento diante de Pilatos gritava “crucifica-o” (cf. Mt 27,22-23; Mc 15,13-14; Lc 23,21; Jo 19, 15). “Fizeram uma lavagem cerebral e mudaram as coisas. E transformaram o povo em massa, que destrói” (Homilia, 17/05/2018).

A concepção de “massa não tolera individualidade nenhuma, e menos ainda que a existência individual possa achar em seu íntimo uma plenitude de sentido (…) é apenas uma soma de seres despersonalizados” (Viktor Frankl, Psicoterapia e sentido da vida, p.113-119). A comunidade, ao contrário, é a união de pessoas, cada qual preservando sua individualidade, com uma responsabilidade: o Bem comum.

O Concílio Vaticano II se dirige às comunidades, reafirmando que é competência de todos os homens de boa-vontade “vivificar com espírito humano e cristão os meios de comunicação, a fim de que correspondam à grande esperança do gênero humano e aos desígnios divinos” (Inter mirifica, 3).

Por Dom Edney Gouvêa Mattoso – Bispo de Nova Friburgo (RJ)

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