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Notícias › 10/08/2020

O mar e seus trabalhadores: uma “periferia” tão amada pelo Papa

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Existem muitas fragilidades no mundo do mar e seus trabalhadores, um mundo precioso para a humanidade em termos de economia, comércio, alimentação e proteção ambiental. Marinheiros e pescadores correm muitos riscos físicos, enfrentam pesados desafios econômicos, experimentam sofrimentos e dificuldades que a Covid-19 acentuou. Mas nada disso passa despercebido aos capelães e voluntários que, desde o nascimento do Apostolado do Mar, os escutam em cerca de trezentos portos, através das mídias sociais e nas capelas dos navios, a todo momento.

Cem anos de fundação significa proximidade e, neste momento, também amplificação da voz daqueles que, nas periferias do mundo, não têm voz, para que seus direitos sejam reconhecidos e protegidos e para que seu trabalho possa ser realizado em segurança. O mês central do verão europeu, agosto, na oração do Papa é dedicado ao mar e seus trabalhadores: mas é apenas a última de três ocasiões que Francisco dedica ao tema, evidentemente por um interesse particular. Qual? Nós conversamos sobre isso como o pe. Bruno Ciceri, responsável pelo Apostolado do Mar no âmbito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral:

Pe. Ciceri: Existem razões específicas para essas reações do Santo Padre em relação às pessoas do mar. Em junho passado, ele agradeceu aos marinheiros pelo seu trabalho durante o período de confinamento, quando tudo estava parado, e os marinheiros continuaram transportando 90% da mercadoria e, sobretudo, transportaram equipamentos médicos de uma parte para outra do mundo. A segunda reação do Santo Padre foi feita no dia 13 de julho, no chamado Domingo do Mar, um domingo em que ecumenicamente, com outras denominações cristãs, procura-se agradecer aos marítimos pelo trabalho que realizam, pois tornam a nossa vida mais fácil. Depois a intenção de oração de agosto, também porque este ano celebramos o centenário de fundação do Apostolado do Mar e quisemos enfatizar essa nossa realidade. Penso que a principal razão pela qual o Santo Padre está tão próximo ao povo do mar é porque o mundo marítimo é uma das periferias em que a Igreja está presente, onde a Igreja trabalha. Os portos estão nas periferias das cidades. E nós estamos presentes ali. Existem alguns temas no mundo marítimo que são muito caros ao Papa Francisco, por causa do tipo de sofrimento das pessoas. Pensemos no trabalho forçado, no tráfico de pessoas, na escravidão: por essas razões, o Santo Padre está próximo às pessoas do mar.

Padre Ciceri, quem trabalha no mar, quem vive no mar tem uma vida difícil e às vezes perigosa: 745 pessoas morreram entre 2011 e 2020. Há um perigo de vida, um perigo de trabalho forçado, há poluição, existem regras da pesca que nem sempre são respeitadas. Que impacto todas essas coisas têm sobre os marinheiros?

Pe. Ciceri: Um impacto muito forte sobre suas famílias. Primeiramente, falamos dos perigos naturais: existe a tempestade, o furacão e mesmo que esses navios sejam enormes, quando se confrontam com a força da natureza, se tornam pequenos galhos jogados aqui e ali no mar. Depois há os perigos criados pelo homem, e aqui falo da pirataria. Alguns anos atrás, em 2011-2012, era o principal problema, agora se fala pouco, mas ainda temos grandes problemas com a pirataria em algumas partes do mundo. Depois, a situação da Covid nos últimos meses. A vida do marinheiro já é em si mesma desgastante, porque são obrigados a permanecer longe de suas famílias por 8 a 10 meses. O que aconteceu com a Covid? As fronteiras estavam fechadas, os aviões não estavam mais voando. Assim, estes marítimos ficaram presos nos navios e seu contrato de 8 a 10 meses tornou-se de 14-15-16 meses. No momento temos cerca de 200 mil marítimos bloqueados nos navios e não se consegue fazer a troca da tripulação. Portanto, gostaria realmente de fazer um apelo a todos os governos, gostaria também de fazer um apelo às autoridades nos portos: os marítimos são trabalhadores essenciais, não apenas para a economia da Itália, mas para a economia global. Portanto, devemos criar canais especiais para facilitar esta mudança de tripulação e devemos insistir nisso, caso contrário, nestas pessoas aumenta a fadiga, aumenta o estresse, especialmente o estresse mental. Recebi de nossos capelães alguns relatos de marinheiros que não resistiram a essa pressão psicológica e cometeram suicídio.

Padre, quando falamos do mar, de portos, de marítimos, nunca pensamos que a economia do mar tenha um retorno sobre a economia terrestre, isto é outra coisa que o Papa se preocupa muito e sublinha…

Pe. Ciceri: Sim, a maior parte do mundo depende do mar. Sabemos muito bem que a maioria dos produtos vem do leste da Ásia e deve ser transportado para cá. O transporte aéreo é muito caro, portanto, se usam os navios. Pensemos nisso por um momento: desde o telefone celular que usamos para tudo, até a televisão, roupas, carros, gasolina, tudo é transportado pelo mar, mas não nos damos conta disso. Tenho certeza de que muitos de vocês também já fizeram um cruzeiro e o cruzeiro se faz no mar. Devemos estar cientes de tudo isso. Pensemos na indústria pesqueira, a pesca. Cerca de 60 milhões de pessoas no mundo estão envolvidas na pesca e 15% desses 60 milhões de pessoas que trabalham na pesca e na cultura da água são mulheres. Até mesmo a comida que comemos, muito vem do peixe. Devemos também ter em mente que muitos dos países em desenvolvimento têm o peixe como seu principal alimento. Portanto, o mundo marinho, como um todo, é um mundo muito importante para todos nós.

Pe. Ciceri: O Papa pensa também nos capelães dos marinheiros e na pastoral que diz respeito aos marinheiros. Qual é a condição de um sacerdote que vive esta dimensão religiosa?

Pe. Ciceri: Devemos dizer que a Igreja sempre esteve próxima às pessoas do mar. Em 1920, um grupo de leigos se encontrou e reuniu todas estas realidades da Igreja e a chamou de Apostolado do Mar. Aqui se encontra esta pequena realidade formada por 4-5 leigos. Ao longo do tempo ela cresceu e se desenvolveu até os dias atuais em que temos uma organização presente em trezentos portos com muitos capelães e voluntários. O que eles fazem? Todos os dias eles vão ao porto, embarcam nos navios, visitam os marinheiros e escutam suas necessidades. Sempre foi assim antes da Covid. Infelizmente, com a Covid, houve o fechamento, mas os nossos capelães encontraram novas formas de estar presentes. Eles usaram muito as mídias sociais, por exemplo, criaram um chat que é uma aplicação onde qualquer marinheiro de qualquer parte do mundo pode ligar e encontrar alguém que fala sua língua e pode ajudá-lo e confortá-lo. Geralmente prestamos todo tipo de assistência: começamos com a assistência espiritual, depois a celebração da missa nos navios, mas também intervimos quando há eventos dramáticos nos navios. Pode haver um acidente e alguém morrer; ou os marinheiros podem cometer suicídio, e numa pequena comunidade de 15-20 pessoas num navio, se acontece alguma coisa a algum deles, torna-se um drama. Então os nossos capelães são geralmente os primeiros a entrar a bordo para levar-lhes conforto. Mas os marinheiros precisam de muitas outras pequenas coisas: para nós é muito simples, se acabar o xampu, se acabar a pasta de dente, saímos para comprar. Se eles chegam ao porto à noite e partem pela manhã, não há esperança de sair e comprar. Os portos estão todos longe da cidade. Então nós vamos comprar xampu ou pasta de dente, pequenas coisas que são importantes para eles. Depois, outra coisa essencial: procuramos de diferentes maneiras levar-lhes wi-fi a bordo para que aqueles que têm celulares possam se comunicar e ver suas famílias.

Estamos no Ano da Laudato si’. O que os marinheiros podem fazer para defender o mar?

Pe. Ciceri: Eu diria que no mundo marítimo, na indústria marítima muito já está sendo feito para respeitar o mar. Por exemplo, a redução das emissões poluentes dos navios: diferentes tipos de combustível estão sendo procurados para que o ar não seja poluído. Também, por exemplo, a lavagem dos porões, antes toda a água era jogada no mar e talvez houvesse substâncias poluentes. Agora, estão tentando mudar tudo isso e, mais cedo ou mais tarde, conseguiremos. Depois, falando sobre os pescadores, eles, em diferentes partes do mundo, não pescam mais apenas peixe, mas também o plástico que encontram no mar e há muito. Eles o trazem de volta para terra e o entregam à reciclagem. Portanto, existe uma consciência muito, muito forte por parte dos pescadores em relação ao respeito pelo meio ambiente. Mas a coisa mais importante nós temos que fazer: devemos nos comprometer a não dispersar o plástico no meio ambiente porque, como a Terra é coberta por maior parte de água, certamente o que deixamos na terra acaba na água e polui a água que é o sustento, não só para os pescadores e marinheiros, mas também para nós.

Via Vatican News

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