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Artigos › 28/06/2018

Sejamos mais lúcidos e proativos

A Copa do Mundo tem envolvido um terço da população do planeta, com um custo altamente bilionário. O sistema empresarial em torno da bola e dos 265 milhões de jogadores profissionais e amadores, em todo o mundo, gera lucros gigantescos. O futebol mundial não foi, no entanto, idealizado dessa forma capitalista pelo católico humanista francês, Jules Rimet, ao criar a Copa do Mundo, sendo a primeira, realizada no Uruguai, em 1930.

Quando criança, ele foi “coroinha” na Igreja de sua aldeia. Em meio a uma grande crise econômica da Europa, sua família mudou-se para Paris, em busca de dias melhores. Ele e seus amigos, influenciados pela primeira Encíclica Social da Igreja Católica, chamada Rerum Novarum (Coisas Novas), do Papa Leão XIII, publicada em 1891, se tornaram jovens idealistas em favor dos trabalhadores assolados pela exploração e pela miséria.

Inspirados por essa Encíclica, eles fundaram uma associação de assistência social e médica aos mais pobres. Ele tornou-se advogado, dedicando-se sempre à caridade. Amante do futebol, tomou a iniciativa de promover esse esporte para unir pessoas, especialmente os mais pobres. Fundou, então, um clube aberto a qualquer pessoa, sem discriminação étnica e social, com o objetivo de promover convivência saudável.

Motivado pela possibilidade dos esportistas cultivarem um bom relacionamento, em lugar de “ódio em seus corações e insultos em seus lábios”, como dizia, ele fomentou o futebol, até então, desprezado por ser considerado esporte de classe baixa. Em 1904, ele participou da fundação da Federação Internacional de Futebol (FIFA). O plano dessa associação de organizar uma Copa do Mundo foi frustrado pela primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918.

Após a guerra, tornando-se presidente da FIFA, ele se dedicou ao ideal de tornar o futebol um meio de congraçamento entre povos. Esse destino, no entanto, não se tornou tão promissor, pois o futebol incorporou a lógica mercantilista, se tornou objeto de investimento capitalista e corrupção dos próprios dirigentes de futebol, inclusive da FIFA, e passou a ser um instrumento alienador, nocivo à vida sócio-política, pois seu fanatismo passou a anestesiar consciências.

No Brasil, por exemplo, é difícil encontrar alguém que não saiba o nome do técnico da seleção. Mas, poucos sabem os nomes dos ministros do trabalho, da educação e da saúde, e como eles atuam. Enquanto milhões de brasileiros se fanatizam pela seleção, o Congresso aprova leis que lesam a classe trabalhadora e retiram direitos sociais, com informações ínfimas dos meios de comunicação, se comparadas às jogadas futebolísticas mostradas e comentadas com detalhes.

Estamos em processo eleitoral. São poucos, no entanto, os brasileiros esclarecidos e ativos nesse processo. Neste ano, coincidentemente, dedicado pela Igreja ao laicato, qual tem sido a postura dos cristãos leigos e leigas, vocacionados a atuarem, primordialmente, na vida pública? Estão, realmente, fazendo jus à missão confiada por Cristo de serem “sal da terra e luz do mundo” (cf. Mt 5,13-16), construindo projetos coletivos com impacto sócio-político positivo?

Se os belos ideais do criador da Copa do Mundo não foram assegurados por sua própria ingenuidade sócio-política, o que dizer de quem sequer tem ideais sociais? Desafiados a mudar a cultura mercantilista, inspiremo-nos no bom combate do Apóstolo Paulo, travado com fé lúcida (cf. 2Tm 4,7). Que tal, então, sermos mais esclarecidos e proativos politicamente? Senão, mesmo ganhando Copas do Mundo não conquistaremos melhores condições de vida.

Por Dom Reginaldo Andrietta – Bispo de Jales

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